No Dorso do Rinoceronte é um projeto de música para crianças criado a partir da parceria entre Silvio Mansani e Emílio Pagotto, iniciado em meados dos anos 2000, em Florianópolis. O encontro entre os dois artistas nasce do desejo comum de compor canções infantis que respeitassem a inteligência da criança, valorizando tanto a elaboração musical e poética quanto o prazer da escuta e do jogo sonoro.

À época, Silvio Mansani concluía a graduação em Educação Artística – Habilitação em Música (UDESC) e buscava articular sua formação pedagógica com sua atuação como compositor de canções. Emílio Pagotto, então professor de Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), trazia uma trajetória ligada à criação de trilhas sonoras para teatro e à composição de canções infantis, já presentes em seu repertório, como Roda-gigante e Aniversário do urubu. A partir desse encontro, a composição conjunta tornou-se um espaço fértil de experimentação artística.
Dessa parceria surgiu o primeiro disco do projeto, No Dorso do Rinoceronte – Música independente para crianças inteligentes (2008), concebido como um conjunto de canções que exploram diferentes gêneros da música popular brasileira e universos narrativos próximos da imaginação infantil. Um dos núcleos criativos do disco é a Suíte do Parque de Diversões, construída a partir da canção Roda-gigante e expandida com novas peças, como Carrossel, além de outros “brinquedos” sonoros que compõem esse parque imaginário.
[…] a música para esse público pode ser lúdica, divertida e artisticamente rigorosa ao mesmo tempo, sem precisar recorrer a “boas mensagens” fáceis ou fórmulas simplificadoras.

Desde o início, o projeto se afastou de uma concepção didatizante da música infantil. Se a formação educativa de Silvio apontava para a dimensão pedagógica da escuta, foi justamente o contraponto proposto por Emílio — a defesa do encantamento com a linguagem como valor central — que ajudou a definir o rumo estético do trabalho. A inspiração em projetos emblemáticos da canção infantil brasileira, como A Arca de Noé (Vinicius de Moraes) e os discos de Chico Buarque e Toquinho para crianças, reforçou a ideia de que a música para esse público pode ser lúdica, divertida e artisticamente rigorosa ao mesmo tempo, sem precisar recorrer a “boas mensagens” fáceis ou fórmulas simplificadoras.
O disco contou com patrocínio via lei de incentivo a cultura de Santa Catarina e reuniu um amplo conjunto de músicos e artistas expressivos da cena de Florianópolis naquele período. O show de lançamento aconteceu no Teatro Álvaro de Carvalho, com a participação de muitos desses convidados, e marcou o início da circulação do projeto pelos palcos.
Na sequência, o SESC contratou o espetáculo para integrar o projeto Baú de Histórias, o que levou à formação de um trio base, com Silvio Mansani, Marco Lorenzo (instrumentos de sopro, percussão e cordas) e Luiz Canela (violão). Essa formação não apenas levou o repertório do primeiro disco a diferentes públicos, como também abriu caminho para novas composições, dando origem a um segundo movimento do projeto.
Esse desdobramento resultou no CD Outras Viagens… no Dorso do Rinoceronte, reunindo novas parcerias entre Silvio Mansani e Emílio Pagotto, além de canções individuais de cada compositor. O segundo disco reafirma os princípios do projeto: diversidade estética, cuidado com a forma, temas próximos do cotidiano infantil e uma música capaz de envolver crianças e adultos numa escuta compartilhada.

Ao longo de sua trajetória, No Dorso do Rinoceronte participou de diversos eventos e ações de formação de público, integrando diferentes projetos do SESC, tais como o Baú de Histórias e o Projeto Verão, além da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. O projeto também realizou shows para alunos de escolas públicas do município de São José, ampliando o contato direto com crianças em contextos educativos. Além disso, o CD Outras Viagens… no Dorso do Rinoceronte foi gravado com patrocínio de edital de cultura da Prefeitura de Florianópolis, prevendo a distribuição gratuita de CDs para unidades escolares e o download gratuito do álbum pela comunidade, reforçando o compromisso do projeto com o acesso público à música, à escuta qualificada e à circulação democrática da produção cultural.
Mais do que um projeto musical infantil, No Dorso do Rinoceronte se constitui como uma proposta artística que aposta na imaginação, na escuta atenta e no prazer do encontro com a música, entendendo que formar ouvintes sensíveis passa, antes de tudo, por oferecer experiências sonoras ricas, inventivas e profundamente humanas.
