

Fernanda Rosa
Ive Luna
Silvio Mansani
O EP Entre Canto e Fala reúne três composições para trio vocal a cappella, interpretadas por Fernanda Rosa, Ive Luna e Silvio Mansani. Como sugere o título, as obras exploram as fronteiras entre o ato cotidiano de falar e o gesto de estabilizar alturas e durações que reconhecemos como canto. Em muitos momentos, os intérpretes abrem mão do conforto da tonalidade e do ritmo das melodias tradicionais em favor de uma maior liberdade de vocalização. São três vozes que improvisam e reagem umas às outras, orientadas por diretrizes estabelecidas nos ensaios e guiadas pela leitura de textos poéticos. A partir de uma perspectiva polifônica e retórica — à semelhança de um madrigal renascentista —, as peças dialogam com a música vocal das vanguardas do século XX, a tradição da canção brasileira e a poesia concreta. O resultado pode soar como uma declamação poética a três vozes, um jogral deliberadamente indisciplinado, uma cena de rádio-teatro ou até mesmo uma canção.
A seguir, são apresentados alguns detalhes sobre as músicas e o processo de produção, dos ensaios às sessões de gravação. A leitura pode ser acompanhada pelas gravações disponíveis no player.




Viva Vida é construída a partir de um poema de inspiração concretista, rico em recursos como assonância, aliteração e paronomásia, que desenvolve um jogo de repetições e permutações entre palavras de sonoridade próxima, explorando simultaneamente suas dimensões sonora e semântica. Na interpretação, a obra oscila entre a fala cantada e o canto, incorporando arabescos vocais inspirados no aboio sertanejo e no modo mixolídio.
Na interpretação, a obra oscila entre a fala cantada e o canto, incorporando arabescos vocais inspirados no aboio sertanejo e no modo mixolídio.
Antes de iniciar os ensaios com Fernanda e Ive, realizei experiências de criação baseadas em improvisos apenas com a minha voz. Numa dessas sessões, eu tentava imaginar uma introdução para o poema de um madrigal cujas gravações acabaram não sendo concluídas. Eu brincava com os fonemas da palavra ‘vida’ e fui criando variações com palavras semelhantes. A coisa foi tomando corpo e se transformou numa espécie de poema concreto.
— Silvio Mansani
Escute na íntegra:

A composição, aqui, não parte de um poema prévio que será musicado, mas de uma exploração vocal improvisada que gera um texto já experimentado em seu potencial entoativo. Essa prática, inicialmente solitária, foi posteriormente incorporada ao trabalho com os demais intérpretes, contribuindo para o caráter flexível das peças. Não se trata de definir uma melodia e elaborar um arranjo, mas de colecionar um leque de possibilidades para o improviso. No estúdio, diante do desafio do registro fonográfico, a obra foi surgindo gradualmente, por meio do processo de gravar e selecionar os melhores takes, ao mesmo tempo em que novas ideias eram experimentadas e avaliadas a cada etapa.


Escute na íntegra:
Infinitivamente nasce de improvisações dirigidas sobre um texto constituído
predominantemente por verbos no infinitivo. A partir da definição prévia de cenas, afetos e
sonoridades, o trio constrói uma trama vocal situada entre o canto e a fala, evocando
procedimentos do teatro musical e da música vocal contemporânea.
São evidentes os ecos de A-Ronne, de Luciano Berio — na construção de cenas e, de modo mais indireto, na dimensão existencial que atravessa os dois trabalhos. Se a obra de Berio performa seu poema inúmeras vezes, sempre de modo diferente, em um aceno ao caráter cíclico da vida, Infinitivamente se apega à resiliência da continuidade e propõe uma leitura única e direta de seu texto, encerrada por repetições que funcionam como síntese e devir: “Viver: ir e vir e ir e vir e ver vir ver viver.”
Quando ouço o resultado de Infinitivamente, meu sentimento de autoria é bem diferente daquele que tenho em relação a outras músicas que já compus. Não sinto que seja uma obra concluída, mas um percurso: um jogo que pode — e deve — ser repetido, sempre com resultados diferentes. Não há insatisfação com o resultado; há, antes, o desejo de repetir a experiência para alcançar outros contornos. Mesmo em relação ao texto, não tenho o mesmo apego à sua configuração formal. Antes dos ensaios com Fernanda e Ive, cheguei a desenhar algumas partituras, buscando estabelecer uma estrutura para a peça, mas desisti rapidamente quando percebi que os resultados das improvisações superavam a minha imaginação.
— Silvio Mansani
O texto parte de uma coleção aparentemente amorfa de verbos no infinitivo, organizada em campos semânticos capazes de sugerir cenas afetivas: uma festa, uma guerra, uma cena erótica. Ao longo dos ensaios, foi remodelado, com a inclusão e a retirada de palavras, até que a própria performance lhe conferisse a redação final. Assim, ouvir a gravação acompanhando o poema pode dar a impressão de uma leitura previamente concebida, quando, na verdade, boa parte da estrutura se definiu no próprio processo de criação.


Fragmentos, inspirada em Rap Popcreto (1993) de Caetano Veloso — por sua vez, um tributo aos Popcretos (1964) de Augusto de Campos — reúne citações de canções populares brasileiras que contêm a palavra “vida”. Diferentemente da obra de Caetano, construída a partir de samples de fonogramas nos quais cantores entoam a palavra “quem”, esta montagem é inteiramente realizada com excertos gravados pelos próprios intérpretes.
Os fragmentos melódicos são apresentados sucessivamente e sobrepostos, fazendo surgir harmonias casuais e improváveis, enquanto a justaposição das letras estabelece novas aproximações semânticas. Sobre o processo de criação, Silvio Mansani afirma:
“Eu sempre quis fazer algo parecido com o Rap Popcreto, misturando trechos de canções famosas, mas as minhas escolhas me levaram a um caminho um pouco diferente. Os samples de Caetano são recortes de uma única palavra, mas carregam o timbre da voz e a instrumentação das músicas de onde foram retirados. Em Fragmentos, precisei usar trechos maiores, em torno da palavra ‘vida’, para facilitar o reconhecimento das canções citadas. Essa ideia de colagem me remete às propagandas de álbuns fonográficos veiculadas na televisão, em que pequenos trechos das faixas do disco eram encadeados em um intervalo de poucos segundos — aquelas vinhetas que apresentavam um disco inteiro em quinze segundos.”
— Silvio Mansani

Na gravação, os fragmentos são organizados em blocos que aproximam trechos de sambas, canções pop, rock brasileiro e até canções infantis. A montagem faz com que os excertos transitem entre diferentes gêneros e épocas, colocando em contato referências musicais distintas, cuja palavra comum — “vida” — se torna um ponto de convergência.
Essa seleção, porém, não é neutra: traz também um recorte geracional, ligado ao repertório que compõe a memória musical do compositor e dos intérpretes. Procurou-se preservar a integridade dos fragmentos, tanto para favorecer seu reconhecimento quanto para construir uma estética de colagem intertextual associada ao uso de samples.
Entre sobreposições e sucessões, o ouvido é constantemente atraído por linhas melódicas reconhecíveis, que funcionam como índices das canções de origem, mesmo quando parcialmente descontextualizadas. A identificação desses contornos convive com a perda de seus contextos originais, fazendo com que as citações oscilem entre reconhecimento e estranhamento. Deslocados de suas canções e postos em contato, os fragmentos produzem novas relações harmônicas e de sentido, nascidas do encontro entre repertórios, épocas e memórias diferentes.
Ouça na íntegra:
A pesquisa
As três composições integram a pesquisa de doutorado de Silvio Mansani, intitulada Madrigais Contemporâneos: Música e Poesia Entre Canto e Fala, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Música da UDESC, sob orientação de Acácio Piedade e com apoio da CAPES. Realizado em colaboração com Fernanda Rosa e Ive Luna, o projeto adota um processo de criação compartilhada, no qual as obras se constituem a partir do diálogo artístico entre compositor e intérpretes.
Em busca de novas ideias musicais, Silvio Mansani pesquisou a música vocal das vanguardas europeias do século XX. Investigou procedimentos como o Sprechgesang, técnica de canto falado descrita por Arnold Schoenberg em Pierrot Lunaire, op. 21 (1912), que, em contraposição ao bel canto, abriu caminho para grandes transformações nos modos de utilizar a voz. Entre as obras vocais observadas, destacam-se Aria (1958), de John Cage, e Stripsody (1966), de Cathy Berberian, com suas partituras gráficas heterodoxas e sua grande abertura à improvisação; Sequenza III (1965) e A-Ronne (1974), de Luciano Berio; Nonsense Madrigals (1988–1993), de György Ligeti; e Madrigali (2007), de Salvatore Sciarrino. Cada autor, à sua maneira, contribuiu para expandir a paleta de timbres e modos de emissão vocal, explorando a materialidade da voz para além do sentido das palavras e da sintaxe tradicional do texto — inclusive por meio de sons que acompanham ou substituem a fala, como risos, suspiros, gemidos, gritos e murmúrios, sem chegar a constituir palavras propriamente ditas.
No contexto brasileiro, foram fundamentais os estudos sobre as relações entre o grupo Noigandres (Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari), o movimento Música Nova (Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira, Rogério Duprat, Damiano Cozzella e Júlio Medaglia) e o Tropicalismo (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, entre outros). Foram observadas obras baseadas em poemas concretistas musicados, como Beba Coca-Cola (1966–1967) e Nascemorre (1963), de Gilberto Mendes, bem como canções e álbuns da música popular comprometidos com experiências vanguardistas — de Araçá Azul (1973), de Caetano Veloso, a Clara Crocodilo (1980), de Arrigo Barnabé, passando por Estudando o Samba (1976), de Tom Zé. Também foram importantes obras recentes que abordam o madrigal a partir da voz expandida, como Moi Singe (2014), do brasileiro Januíbe Miranda, e Madrigales del rio (2019) e Soap Madrigals (2023), do argentino Tomas Gueglio.
Os pseudo-madrigais de Entre Canto e Fala, porém, não pretendem trilhar exatamente os mesmos caminhos de outrora, nem simplesmente retomar as experiências das vanguardas em busca de seus antigos horizontes utópicos. Partilham, sim, da devoção renascentista ao texto e do prazer da textura polifônica, filtrados pela experiência de A-Ronne, de Luciano Berio — obra que o compositor definiu como um “teatro do ouvido”. Inspiradas por essa ideia e comprometidas com uma prática flexível de criação coletiva, orientada por diretrizes previamente estabelecidas e aberta à transformação a cada nova realização, as peças investigam as múltiplas possibilidades de vocalização do texto. As gravações aqui apresentadas são, portanto, o resultado de um momento particular desse processo. Embora fixadas em registro fonográfico, as obras podem assumir configurações bastante diferentes em uma apresentação ao vivo, dadas as liberdades concedidas aos intérpretes e a natureza essencialmente processual de sua construção.












Ficha técnica
Vida Viva e Infinitivamente baseiam-se em textos de Silvio Mansani; Fragmentos de Vida é uma colagem de trechos de canções populares selecionados pelo compositor. Nas três obras, a composição musical é de Fernanda Rosa, Ive Luna e Silvio Mansani.
Gravado e mixado entre maio e julho de 2026, no estúdio The Magic Place, em Florianópolis. Captação: Léo Guedes. Mixagem e masterização: Renato Pimentel. Fotografias: André Maia. Ilustrações: Roberto Gorgati. Webdesign: Pedro Henrique Tesman da Silva. Produção executiva: Manuela Viana de Souza Rossa.
Esta pesquisa foi realizada com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

