O EP Entre Canto e Fala reúne três composições para trio vocal a cappella, interpretadas por Fernanda Rosa, Ive Luna e Silvio Mansani. Como sugere o título, as obras exploram as fronteiras entre o ato cotidiano de falar e o gesto de estabilizar alturas e durações que reconhecemos como canto. Em muitos momentos, os intérpretes abrem mão do conforto da tonalidade e do ritmo das melodias tradicionais em favor de uma maior liberdade de vocalização. São três vozes que improvisam e reagem umas às outras, orientadas por diretrizes estabelecidas nos ensaios e guiadas pela leitura de textos poéticos. A partir de uma perspectiva polifônica e retórica — à semelhança de um madrigal renascentista —, as peças dialogam com a música vocal das vanguardas do século XX, a tradição da canção brasileira e a poesia concreta. O resultado pode soar como uma declamação poética a três vozes, um jogral deliberadamente indisciplinado, uma cena de rádio-teatro ou até mesmo uma canção.

A seguir, são apresentados alguns detalhes sobre as músicas e o processo de produção, dos ensaios às sessões de gravação. A leitura pode ser acompanhada pelas gravações disponíveis no player.

O texto parte de uma coleção aparentemente amorfa de verbos no infinitivo, organizada em campos semânticos capazes de sugerir cenas afetivas: uma festa, uma guerra, uma cena erótica. Ao longo dos ensaios, foi remodelado, com a inclusão e a retirada de palavras, até que a própria performance lhe conferisse a redação final. Assim, ouvir a gravação acompanhando o poema pode dar a impressão de uma leitura previamente concebida, quando, na verdade, boa parte da estrutura se definiu no próprio processo de criação.

Fragmentos, inspirada em Rap Popcreto (1993) de Caetano Veloso — por sua vez, um tributo aos Popcretos (1964) de Augusto de Campos — reúne citações de canções populares brasileiras que contêm a palavra “vida”. Diferentemente da obra de Caetano, construída a partir de samples de fonogramas nos quais cantores entoam a palavra “quem”, esta montagem é inteiramente realizada com excertos gravados pelos próprios intérpretes.

Os fragmentos melódicos são apresentados sucessivamente e sobrepostos, fazendo surgir harmonias casuais e improváveis, enquanto a justaposição das letras estabelece novas aproximações semânticas. Sobre o processo de criação, Silvio Mansani afirma:

Na gravação, os fragmentos são organizados em blocos que aproximam trechos de sambas, canções pop, rock brasileiro e até canções infantis. A montagem faz com que os excertos transitem entre diferentes gêneros e épocas, colocando em contato referências musicais distintas, cuja palavra comum — “vida” — se torna um ponto de convergência.

Entre sobreposições e sucessões, o ouvido é constantemente atraído por linhas melódicas reconhecíveis, que funcionam como índices das canções de origem, mesmo quando parcialmente descontextualizadas. A identificação desses contornos convive com a perda de seus contextos originais, fazendo com que as citações oscilem entre reconhecimento e estranhamento. Deslocados de suas canções e postos em contato, os fragmentos produzem novas relações harmônicas e de sentido, nascidas do encontro entre repertórios, épocas e memórias diferentes.

 A pesquisa

As três composições integram a pesquisa de doutorado de Silvio Mansani, intitulada Madrigais Contemporâneos: Música e Poesia Entre Canto e Fala, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Música da UDESC, sob orientação de Acácio Piedade e com apoio da CAPES. Realizado em colaboração com Fernanda Rosa e Ive Luna, o projeto adota um processo de criação compartilhada, no qual as obras se constituem a partir do diálogo artístico entre compositor e intérpretes.

Em busca de novas ideias musicais, Silvio Mansani pesquisou a música vocal das vanguardas europeias do século XX. Investigou procedimentos como o Sprechgesang, técnica de canto falado descrita por Arnold Schoenberg em Pierrot Lunaire, op. 21 (1912), que, em contraposição ao bel canto, abriu caminho para grandes transformações nos modos de utilizar a voz. Entre as obras vocais observadas, destacam-se Aria (1958), de John Cage, e Stripsody (1966), de Cathy Berberian, com suas partituras gráficas heterodoxas e sua grande abertura à improvisação; Sequenza III (1965) e A-Ronne (1974), de Luciano Berio; Nonsense Madrigals (1988–1993), de György Ligeti; e Madrigali (2007), de Salvatore Sciarrino. Cada autor, à sua maneira, contribuiu para expandir a paleta de timbres e modos de emissão vocal, explorando a materialidade da voz para além do sentido das palavras e da sintaxe tradicional do texto — inclusive por meio de sons que acompanham ou substituem a fala, como risos, suspiros, gemidos, gritos e murmúrios, sem chegar a constituir palavras propriamente ditas.

 No contexto brasileiro, foram fundamentais os estudos sobre as relações entre o grupo Noigandres (Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari), o movimento Música Nova (Gilberto Mendes, Willy Corrêa de Oliveira, Rogério Duprat, Damiano Cozzella e Júlio Medaglia) e o Tropicalismo (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, entre outros). Foram observadas obras baseadas em poemas concretistas musicados, como Beba Coca-Cola (1966–1967) e Nascemorre (1963), de Gilberto Mendes, bem como canções e álbuns da música popular comprometidos com experiências vanguardistas — de Araçá Azul (1973), de Caetano Veloso, a Clara Crocodilo (1980), de Arrigo Barnabé, passando por Estudando o Samba (1976), de Tom Zé. Também foram importantes obras recentes que abordam o madrigal a partir da voz expandida, como Moi Singe (2014), do brasileiro Januíbe Miranda, e Madrigales del rio (2019) e Soap Madrigals (2023), do argentino Tomas Gueglio.

Os pseudo-madrigais de Entre Canto e Fala, porém, não pretendem trilhar exatamente os mesmos caminhos de outrora, nem simplesmente retomar as experiências das vanguardas em busca de seus antigos horizontes utópicos. Partilham, sim, da devoção renascentista ao texto e do prazer da textura polifônica, filtrados pela experiência de A-Ronne, de Luciano Berio — obra que o compositor definiu como um “teatro do ouvido”. Inspiradas por essa ideia e comprometidas com uma prática flexível de criação coletiva, orientada por diretrizes previamente estabelecidas e aberta à transformação a cada nova realização, as peças investigam as múltiplas possibilidades de vocalização do texto. As gravações aqui apresentadas são, portanto, o resultado de um momento particular desse processo. Embora fixadas em registro fonográfico, as obras podem assumir configurações bastante diferentes em uma apresentação ao vivo, dadas as liberdades concedidas aos intérpretes e a natureza essencialmente processual de sua construção.